24 de abr de 2019

O livro fala, a alma escuta


Minha vida de leitora começou na biblioteca da Escola Santo Tomás de Aquino. Não me lembro quantos anos eu tinha, mas me lembro que era minha ´´aula´´ favorita. Sempre fui péssima aluna, mas essa ´´aula´´ eu não perdia de jeito nenhum! Eu pegava vários livros nas prateleiras e era uma luta para escolher qual deles levar para casa, já que só podíamos levar um. Uma completa maldade. Desde então tomei gosto por bibliotecas. Adoro os livros meio velhos, a lombada surrada, e as fichas presas na última página, onde vinha escrito a data da devolução e quem tinha lido por último. Daí minha obsessão em sempre, sempre, sempre, ler a última página de todos os livros! Elas são bem interessantes! Contam quase outra estória!
Os livros saíram das estantes e entraram na minha vida como um furacão. Nunca mais vou me esquecer dos personagens de Um Presente Para Claudia, meu favorito da adolescência, ou as aventuras incríveis da Turma do Posto Quatro. Eu sonhava em morar na rua da Claudia ou fazer parte da turma carioca. Passados uns 40 anos, ainda sei de cor os nomes dos personagens.
Dos livros juvenis, passei a ter adoração por Agatha Christie. Lia uma, duas, três, quatro vezes o mesmo livro. Cheguei a decorar frases inteiras. Ficava fascinada pelos personagens, pelos lugares, pelos cenários. Viajava com ela para a Inglaterra, França, Turquia, Egito. Tinha certeza que um dia, eu seria uma escritora como ela. Criava meus próprios personagens e passava noites e noites acordada pensando em finais diferentes ou como eu reescreveria cada capítulo ou mudava o assassino. Ainda bem que não me restou escrever outra coisa, que não escrever somente nas redes sociais. O mundo se livrou de uma péssima escritora...
Quando eu tinha uns 20 anos, descobri a biblioteca pública Luis de Bessa, que ficava ao lado de onde eu trabalhava. Era um paraíso! Lá não tinha o limite de 1 livro, você podia pegar quantos quisesse desde que devolvesse no dia certo. Claro que eu não devolvia e minhas multas eram altíssimas! Ainda bem que eu já tinha meu salário...
Na biblioteca pública passei a ler de tudo! Tudo mesmo! Desde os clássicos até os chamados Proibidões, que na casa da minha mãe eram encapados com papel pardo para a gente não ler o título!!
Quando meus filhos nasceram, eu lia no banheiro, o único lugar onde qualquer mãe de dois guris tem sossego (quem tem filhos sabe do que estou falando).
Troco muitas companhias por um livro, fácil, fácil. Aliás, com a idade, troco cada dia com mais facilidade...
Leio toda hora, em qualquer lugar. Leio no carro, quando o sinal está fechado, leio na fila do banco, leio no restaurante, na piscina, na praia. Meu sonífero é o livro. Não durmo sem ler pelo menos 10 páginas de qualquer coisa. E com exceção dos chamados livros de auto-ajuda, leio de tudo! De Harry Potter, passando por Machado de Assis até Nietzsche.
O problema é que só ler as vezes não basta. É preciso falar incansavelmente sobre o livro. Não tive dúvidas, tratei de criar um Clube do Livro! Convidei minhas amigas que compartilhavam esse prazer e hoje, passados vários anos, esse Clube é minha paixão.
Acredito firmemente que o verdadeiro analfabeto é o que aprendeu a ler e não o faz. Os livros são companhias perfeitas, exímios professores, terapeutas sensíveis. São também os livros que nos transformam...
...são os livros que nos fazem olhar para o mundo e querer mais. São os livros que nos inquietam e nos desassossegam. São eles, aquelas páginas cheias de palavras, que nos fazem perguntar sempre ´´porque?´´, são os livros que não nos deixam parar de viver. Por isso nem sempre quem lê é simpático, dócil ou afável. Quem lê pergunta, indaga, questiona, não se contenta com qualquer coisa. Como dizia Paulo Francis, ´´quem lê pensa e quem pensa jamais será um servo.´´ A leitura nos dá senso crítico, nós dá estofo para argumentarmos, nós dá uma certa rebeldia. E dependo do interlocutor essa rebeldia é uma afronta. ´´Cuidado com as pessoas que estão sempre lendo um livro´´.
O livro abre uma espécie de Caixa de Pandora em nós. Depois de aberta é impossível voltar para dentro de novo. ´´A mente que se abre ao novo, nunca mais volta ao tamanho anterior´´.
Nas paredes da fazenda da minha mãe está pintado em letras enormes, azuis, entre duas estantes de livros: ´´o livro fala, a alma escuta´´. Eu acrescentaria: e depois que alma escuta, você jamais será o mesmo.
Neste dia internacional do livro, minha homenagem aos meus pais, que me deram a liberdade de ler de tudo, aos meus professores do Santo Tomás que me deixaram ler escondido no corredor, aos autores que me marcaram a minha vida adulta (Carla Madeira, minha favorita), aos livreiros que me indicam os títulos, e principalmente, queria muito agradecer a minha turma de ´´rebeldes´´ maravilhosos, que dividem comigo este amor pela literatura e que me fazem ver o mundo com outros olhos: Mariana Fonseca, Ana Maria Ribeiro, Clissia Pena, Ana Maria Moreira, Audrey Andrade, Eli Gambrini, Fá Dupim, Gabi Araújo, Helo Lelis, Samaritana Gontijo, Heloisa Azeredo, Joana Farnezi, Juliana Queiroz, Junia Gianetti, Junia Mendes, Manu Recoder, Maria Eugenia Couri, Marise Rache, Maria Eugênia Couri, Paty, Rita, Soraya Lara, Tania Campos, Tati Gabrich, Cidoca Nogueira, Thaís Henriques, Tina Lage, Valerinha Amaral. Vocês são incríveis!



3 comentários:

Anônimo disse...

e os rapazes não lêem ? apenas 1 numa fiada de mulheres ? incivilizados ? reféns da ignorância ? Tá na hora do clube arregaçar as mangas e remodelar a sua cultura.

Anônimo disse...

eu amo ler, desde criança, e imputo muito desse afeto o fato de ter estudado no Santo Tomás de Aquino e a essa aula de Biblioteca. AMAVA! Escolhia os meus livros, levava para casa, li diversas coleções infantis maravilhosas!
Que pena não ter isso nas escolas hoje............

Anônimo disse...

Concordo 100% com vc . Ler nos faz voar para lugares incríveis e muitas vezes voamos dentro de nós mesmos. Ler nos engrandece !
Adoro seu blog, parabéns
Um beijo